Nasci e cresci em terras lisboetas. Mas a minha vida académica foi passada em Portalegre. As colocações assim me ‘obrigaram’. Mas olho para trás, foi das melhores coisas que me poderia ter acontecido. Cresci mais depressa e tive experiências que nunca irei esquecer. E quando regresso àquela calçada recordo sempre esses velhos tempos. Além de me ter ajudado a tornar mulher, aprendi nomeadamente a desenrascar-me sozinha, em tudo: nas lidas da casa, em cozinhar, entre outras. Mas o cozinhar tem sempre histórias engraçadas. Há refeições que ficam um belo petisco, mas há outras que não ficam lá grande coisa. Mas a minha mãe, sempre me ensinou a comer tudo o que está no prato, mesmo que não esteja bom. E sempre cresci assim. A comer algumas coisas que não se gosta, porque também faz parte da nossa educação alimentar.

Já comi sopa sem sal e com sal a mais. Lembro-me perfeitamente de um dia, ficar mais de meia hora a olhar para os legumes frescos e não fazer ideia de como os cozinhar. Mas todas as semanas experimentava um novo. Fiz uma vez, fusili com courgete e pesto, mas ficou bem delicioso. A partir daí fiquei uma fã de courgete e pesto. Fui descobrindo os vegetais pouco a pouco. E um dia aventurei-me e fiz sopa. Correu muito bem e gabei-me nessa noite, com as minhas amigas.

Tínhamos os nossos jantares académicos, sempre divertidos e nunca ninguém se esqueceu da minha pequena limitação. Havia sempre a comida da Su. E até hoje, adoro olhar para trás e perceber que essas pequenas coisas, fazem-nos os olhos brilhar. São nestes detalhes que as amizades se distinguem. Um grande amigo sempre foi aquele que protege e preocupa-se. Felizmente ao longo da minha vida, encontrei pessoas extraordinárias e que sempre souberam cuidar de mim, quando mais precisava. A minha acidúria metilmalónica nunca me impediu de fazer qualquer coisa. Talvez desse mais cabelos brancos à minha mãe, quando era mais pequena e lhe perguntava se podia ir às colónias de férias ou aos acampamentos. Mas tudo sempre foi possível. Congelávamos as refeições, levávamos numa geleira e havia sempre um local onde podíamos deixar. E eu fazia sempre o mesmo que os outros. Só era diferente à mesa. Fiz uma peregrinação a pé a Fátima e não tive qualquer problema.

Passados uns largos anos vim para a Suíça viver. E continuo sempre inventar novos pratos, misturas curiosas. Descobertas saudáveis que adoro fazer quando vou ao mercado de manhã. Vou jantar ou almoçar fora sem medos. Recordo-me perfeitamente de uma noite, que fui jantar fora. Era dia de S. Valentim e eles adaptaram o menu à minha condição. Fiquei tão agradecida e contente, porque era um menu chique, mas hipoproteico. Continuo a viajar sem qualquer entrave. Hoje em dia, já há muita alimentação vegetariana em qualquer lado. Sou uma amante de viagens. Mas hoje em dia, quando se reserva um quarto ou mesmo uma viagem longa de avião, pode-se pedir uma refeição vegetariana e eles cumprem. Estive em Cinque Terre e no nosso bed & breakfast eles tinham pão glutenfree e leite de arroz só para mim, extraordinário. Recentemente fui ao Japão e de facto, por causa da língua era mais difícil encontrar algo, mas encontrava-se sempre. Até inclusive, na última noite, encontrei um restaurante glúten free. Bingo.

Por isso, aos novos pais que estão a lidar com esta pequena diferença, não é um drama. Pode parecer ao início, mas é possível fazer tudo com esta limitação. Não prendam ninguém por esta diferença. Deixem-nos voar, para sabermos onde devemos aterrar.

Susana Cruto, Acidúria Metilmalónica.