“Para mim vai ser somente o acompanhamento.”
“Como?”
“Só o acompanhamento!”
“Mas não quer carne? Nem peixe?”
“Não. Não posso.”
“Está bem então.”

Isto é o mais comum que ouço quando vou a um restaurante.
Após isto, pode haver mais diálogo, na tentativa de proporcionar mais alguma coisa a “acompanhar estes acompanhamentos”.

De facto, com a nossa patologia, os restaurantes funcionam como o que costumamos dizer acerca da “Coca-Cola”: primeiro estranham, depois entranham.

Temos toda uma variedade para escolher num restaurante e é o que sempre fiz: batata a murro, batata assada, batata frita, arroz branco, arroz de cenoura, arroz de legumes, salada mista, salada de tomate, salada de alface, salada de alface e cenoura, legumes salteados, feijão-verde salteado, couve salteada, enfim!

A minha última experiência foi interessante e partilho com vocês: era um jantar de natal e os meus amigos combinaram de ir a um restaurante especialista em Pregos no Pão do Caco. Ora, eu não podia comer prego, então lá se desdobraram eles a tentar saber se o restaurante tinha uma opção vegetariana. E tinha! Boa, tínhamos o jantar salvo! Mas… a opção vegetariana incluía um prego de tofu! Pumba, já não dava de novo. Eles ficaram sem saber muito bem o que fazer. Mudar de restaurante? Nããão… eles gostavam de ir àquele local e mudar de restaurante era a opção mais fácil para mim (mas eu não gosto de coisas fáceis e também queria experimentar aquele restaurante)! Então, liguei para o restaurante e combinei tudo com eles, deram-me muitas alternativas e entre possibilidades de saladas variadas e outras “formas de prego” ficámo-nos por um prego de espinafres e cogumelos ? e não é que estava delicioso! Aliás, como cheguei mais tarde, os senhores do restaurante já perguntavam se “menina do prego de espinafres” não vinha. Eheh tinha o chef do restaurante à minha espera! Que coisa importante eheheh. Após o jantar, ainda houve direito a ir “tomar um copo”.

Desde sempre que a minha atitude perante idas a restaurantes com amigos foi a mesma: eles vão? Eu também vou! Vai haver jantar de turma ou de curso? Claro que vou! O “resto” resolve-se. Era o que mais faltava os meus amigos irem-se divertir e eu não!

E sempre tudo foi possível, desde jantares académicos na Faculdade a almoços ou jantares de trabalho agora que já sou “grande” (adulta) e até mesmo tomar o pequeno-almoço no café com amigos (sim, o café torrava o meu pão hipoproteico e eu fazia lá a minha mistura de aminoácidos. Como? O dono do café é um senhor espetacular e a primeira vez que me viu a comer o meu pão pediu-mo, eu fiquei a olhar para o senhor mas ele disse que me ia torrar o pão para não o comer assim! Eu levava o meu shaker com os “pozinhos mágicos”, pedia um chá – tinha a água quente – fazia a mistura e tomava com o pão acabadinho de torrar e com a manteiga a escorrer! Que delícia!).

Penso que para esta minha atitude muito contribuíram os meus pais, que nunca fizeram da Fenilcetonúria um drama e muito menos me trataram de forma diferente – a partir de determinada idade (adolescência) eu tinha de ser responsável pela minha alimentação e conseguir o que os meus amigos conseguiam, porque como os meus pais me diziam: “tu não és menos que eles, por isso anda lá!”. E desta forma, nunca levámos marmita para nenhum restaurante! Teria de haver sempre uma opção para contornar a situação.

De facto, a forma como vemos a fenilcetonúria é a forma como as outras pessoas, que estão à nossa volta, a vão ver! Assim, se a vermos de forma não problemática, também as outras pessoas a irão ver dessa maneira. Apenas temos de fazer uns ajustes na hora de pedir a refeição. Mas, a maior parte das pessoas não faz ajustes nos seus pedidos?

Elisabete Almeida, Fenilcetonúria